Espírito santificador

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23/05/2018 - 10:15

Ao invocarmos os dons do Espírito Santo, geralmente, estamos sobretudo interessados na eficácia da ação do Espírito de Deus em nós. Pedimos a sua sabedoria para sermos sábios; o dom do discernimento, para fazermos escolhas acertadas; da fortaleza, para sermos fortes e perseverantes; pedimos sua luz para vermos mais claramente...

É bem verdade que o Espírito foi prometido por Jesus para ser nosso defensor, consolador, guia, companhia e auxiliador em todas as circunstâncias. Mas podemos correr o risco de fazer dele uma espécie de “força auxiliar”, sendo nós os protagonistas principais. E o Espírito Santo não é isso! Ele é o Espírito “santificador” e nisso consiste sua ação principal. Sua ação santificadora, antes de se traduzir no aperfeiçoamento das nossas virtudes e comportamentos, dá uma qualidade nova à nossa existência. Santos são os que vivem de acordo com a dignidade dos filhos e filhas de Deus. 

Tudo começa no Batismo, quando a pessoa é acolhida na família de Deus e da Igreja pela ação do Espírito Santo. Quem é batizado é santificado, tornando-se filho de Deus e membro da Igreja. “...e todos recebemos a dignidade de filhos. E a prova de que sois filhos, é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá, ó Pai. Portanto, já não és mais escravo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro, tudo isso por graça de Deus” (Gl 4,5-7). Isso nos traz uma compreensão nova da vida cristã e da santidade, que é, acima de tudo, obra do divino Espírito santificador em nós.

Na Carta aos Romanos, temos uma compreensão ainda mais ampla da ação santificadora do Espírito de Deus em nós. Paulo convida a viver “segundo o Espírito de Cristo”, fazendo as obras que vêm do Espírito, e não as obras da “carne” ou “das trevas”, que são “obras mortas”. “Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus mora em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo” (Rm 8,9). Pelo Batismo, passamos a pertencer a Cristo e o Espírito de Cristo age em nós e nos impele a viver de acordo com o Evangelho. 

Mais uma vez, Paulo retoma o pensamento central sobre a condição nova do cristão, graças à ação do Espírito Santo: “todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. De fato, vós não recebestes um espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebestes o Espírito que, por adoção, vos torna filhos e no qual clamamos: Abbá, ó Pai” (8,14-15). Sem a ação do Espírito Santo em nós, seríamos estranhos a Deus e não poderíamos ter a experiência de sua intimidade paternal. Essa familiaridade com Deus é a maior graça que recebemos e jamais poderia ser conquistada por nós mesmos. 

São Paulo continua a explicitar esse pensamento: “O próprio Espírito se une ao nosso espírito, atestando que somos filhos de Deus. E se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo” (Rm 8,16-17). E também é pela ação do Espírito Santo que aprendemos a nos dirigir a Deus e a rezar como convém: “não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Rm 8,26). 

Portanto, a primeira e mais importante ação do Espírito Santo em nós consiste em nos dar, por graça, essa condição nova e altíssima: não apenas somos chamados filhos de Deus, mas o somos, de fato (cf. 1Jo 3,1-2). Tudo o mais decorre dessa graça primeira: os preciosos dons do Espírito Santo capacitam-nos para agir conforme a nossa condição de filhos de Deus. Igualmente, as “obras do Espírito” manifestam a qualidade da vida orientada para Deus e os frutos que brotam dessa existência transformada pelo Espírito de Deus. Em tudo isso consiste a santidade de vida, que somos chamados a viver.

Compreendemos, assim, a palavra do Papa Francisco na recente Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate , sobre o chamado de todos à santidade no mundo atual. A vocação à santidade não é feita apenas a algumas pessoas privilegiadas: é a vocação de todos. Viver a santidade deve ser o jeito normal de quem foi batizado e recebeu o Espírito Santificador. Nossa luta, durante a vida inteira, consiste em viver de maneira coerente essa condição nova de “filhos de Deus”. Podemos, infelizmente, recair “nas trevas”, ou seja, numa vida pouco ou nada digna da nossa vocação à santidade. Mas também nesse caso, se temos boa vontade e nos arrependemos, o Espírito Santo vem em socorro de nossa fraqueza.
 

Cardeal Odilo Pedro Sherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 23/05/2018