Igreja, à imagem da Trindade

07/06/2017 - 13:15

A Liturgia deste período do ano é marcada por celebrações profundamente significativas para a fé cristã. Apenas concluído o tempo pascal, centrado no mistério de Jesus Cristo, Filho de Deus, celebramos Pentecostes, cujo centro é o Espírito Santo, terceira pessoa da Trindade Santa. Logo chega a solenidade da Santíssima Trindade, que nos traz a contemplação do Mistério Santo de Deus, uno na substância e na natureza, trino nas pessoas divinas.

Aquilo que nossa fé professa, a Liturgia celebra e nos leva a adorar e testemunhar. Sobre Deus, podemos afirmar muito e é importante que conheçamos e digamos o que é coerente com aquilo que o próprio Deus revelou de si mesmo aos homens, especialmente por meio de Jesus Cristo; deve ser coerente também com o que os apóstolos ensinaram. A Igreja, ao longo de sua história bimilenar, permaneceu fiel à fé apostólica sobre Deus, mesmo enfrentando dificuldades para se inserir e se expressar de modo fiel nas culturas e linguagens dos povos.

Se é importante manter-nos firmes na unidade da fé em Deus, que a Igreja recebeu dos apóstolos, não é menos importante contemplar, adorar e bendizê-Lo com as expressões da oração, da Liturgia, da arte e da vida mística, em comunhão com a Trindade. O mistério de Deus, central na fé e na vida cristã, está na origem, no centro e no final de toda a nossa existência. Disso nos deu o exemplo mais completo o próprio Jesus Cristo durante a sua vida na terra.

 O mistério de Deus Trindade também é a fonte inesgotável e a referência imprescindível para a identidade, a vida e a missão da Igreja de Cristo. O Pai Eterno, por seu livre desígnio, sabedoria e bondade, criou o homem para participar de sua vida divina. O Filho Eterno, desde sempre presente junto do Pai e inspirador de toda a criação, veio ao encontro do mundo e do homem para nos mostrar o caminho para chegar ao Pai. O Espírito santificador, enviado pelo Pai e pelo Filho sobre os homens, dá-lhes a possibilidade de viver a condição de redimidos, santificados e adotados por Deus como “filhos no Filho”.

Assim, retomando uma expressão de São Cipriano de Cartago e de outros Padres da Igreja, o Concílio Vaticano II afirma que “a Igreja inteira se apresenta como o povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (LG 4). Por isso mesmo, o primeiro ato de ingresso e de pertença à Igreja é praticado no Batismo “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A realidade da Igreja, como um todo, é marcada pelo amor providente e misericordioso do Pai, pela fraternidade amorosa do Filho e pelo dom vital e dinâmico do Espírito Santo.

 A comunhão e a unidade são dimensões essenciais da Igreja. Uma Igreja dividida é contraditória com sua natureza e sua missão. Não foi sem razão que, nas palavras de despedida dirigidas aos apóstolos na última ceia, Jesus recomendou tanto a unidade e o amor recíproco aos apóstolos (cf. Jo 17): isso devia ser no mundo um testemunho constante do amor e da comunhão existentes na Trindade Santa. Sempre é bom lembrar que a Igreja não existe como fruto de um “contrato social”, nem pode ser, simplesmente, reduzida a uma organização humana: ela tem sua origem no desígnio e na ação providente da Trindade Santa; sua vida e missão são marcadas e acompanhadas de maneira permanente pelo dom e a graça do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Fora disso, a Igreja seria uma organização apenas humana, não diferente de uma ONG ou de uma associação, como as demais.

O sínodo arquidiocesano, que estamos para celebrar, deverá ser um caminho de busca da unidade e da comunhão; busca feita juntos, para correspondermos à vida e à missão da Igreja em São Paulo, no momento atual da história e no contexto cultural e social onde estamos inseridos. A comunhão e a unidade, no entanto, não excluem nem dispensam a variedade de dons e contribuições, necessárias à boa realização da vida e da missão da Igreja. Pelo contrário, o caminho sinodal e da unidade eclesial vai requerer uma contribuição rica e dinâmica de todos os membros da Igreja.

 

Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo

Artigo publicado no jornal O SÃO PAULO, na quarta-feira, dia 07/06/2017