Dom José de Camargo Barros

12º Bispo Diocesano (1903-1906)

Lema: VENIO IN NOMINE DOMINI "Venho em Nome do Senhor"

BIOGRAFIA

Nascido em 24 de abril de 1858, na freguesia de Indaiatuba, então comarca de Itu. Era filho do casal João Batista de Camargo Barros e Gertrudes de Assumpção Camargo. Estudou em escolas públicas de Itu e Sorocaba. Em 1875, ingressou no Colégio São Luís, dos jesuítas, em Itu. Demonstrando vocação para o sacerdócio, foi encaminhado pelo reitor do seminário a dom Lino Deodato. Como sua família não dispunha de recursos, solicitou uma vaga no Seminário Episcopal, onde foi admitido em 1877.



PRESBITERADO

Ordenado sacerdote em 13 de março de 1883,pela mãos de dom Lino Deodato, na capela do Seminário Episcopal. Sua primeira homilia repercutiu nos jornais da cidade: dizia-se que possuía uma oratória sacra de grande qualidade

Tempos depois, recebeu o convite para ser professor no seminário e aceitou-o. Ali lecionou durante quatro anos e ocupou o cargo de mestre de disciplina. Assumiu a paróquia de Santa Ifigênia e mostrou-se um pároco bastante zeloso. Estimulou a criação do Partido Católico, o que demonstrou sua capacidade de liderança e o seu total desprendimento, uma vez que recusou figurar entre os candidatos a qualquer cargo público.

Padre José de Camargo defendia a Igreja dos ataques: usava o púlpito e a imprensa para defesa da fé cristã. Fundou O lidador, semanário que mesclava religião e literatura. Depois, o Boletim Eclesiástico, o Mensageiro de Santo Antônio, o Cruzeiro do Sul, A sineta de Deus e A estrela. Por decreto imperial de 18 de setembro de 1883, era cônego honorário da Catedral da Sé.

EPISCOPADO

Com a criação da diocese de Curitiba, pela bula Ad Universas orbisecclesiae, do Santo Padre Leão XIII, de 27 de abril de 1892, dom José de Camargo Barros foi eleito primeiro bispo daquela diocese, em 21 de setembro de 1893. Sua nomeação foi confirmada por breve de 16 de janeiro de 1894.

A determinação era que fosse receber a sagração episcopal em Roma, mas faltava-lhe dinheiro para a viagem. Tendo recorrido a empréstimos com juros altos que lhe custaram a venda da casa de sua família, o novo bispo partiu para Roma, onde recebeu a sagração episcopal, na capela do Colégio Pio Latino-Americano, pelas mãos do cardeal Lucido Maria Parocchi, no dia dia 24 de junho de 1894. Após a sagração, retornou ao Brasil e acompanhou as cerimônias do sétimo dia e falecimento do bispo que lhe ordenara padre: dom Lino Deodato.

Nos dez anos de apostolado que exerceu em Curitiba, demonstrou ser um trabalhador infatigável. Fundou escolas, igrejas, capelas e associações religiosas. Tinha grande preocupação com a formação de sacerdotes. Estabeleceu as congregações do Verbo Divino, das Irmãs dos Santos Anjos, de São José de Chabéry e da Divina Providência; fundou o Seminário e os colégios dos Anjos, em Curitiba; do Sagrado Coração, em Florianópolis, Tubarão e Blumenau, todos para meninas. Conseguiu que os hospitais de Curitiba, Paranaguá e Florianópolis fossem confiados às religiosas. Construiu o palácio para residência episcopal e trabalhou para a criação do bispado de Florianópolis, que foi instituído apenas em 1927.

Com o falecimento de dom Antônio de Alvarenga, o papa Leão XIII transferiu-o para a diocese São Paulo, pela bula de 09 de novembro de 1903. No dia de seu aniversário (24 de abril de 1904), entrou solenemente na Catedral da Sé, tomando posse de seu ofício.

Na Solenidade da Imaculada Conceição, em 08 de dezembro de 1904, realizou a coroação solene da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, no Santuário do Vale do Paraíba. A solenidade contou com a participação de 12 bispos, numeroso clero e grandiosa multidão de peregrinos de todo o Brasil. A partir desse momento, uma coroa de ouro, doada pela princesa Isabel, passou a ornar a imagem original de Aparecida.

Para a diocese de São Paulo, que contava com 322 padres e 235 paróquias, dom José de Camargo estabeleceu normas e exigências de formação do clero para a distribuição das paróquias. Aos párocos delegou auxiliares.

Entre os dias 28 de setembro e 02 de outubro de 1905, realizou o Segundo Congresso Diocesano, que tratou especialmente da fundação doa Imprensa Católica, ficando resolvida a fundação do jornal diário “São Paulo”, que depois de algum tempo foi substituído pela “Gazeta do Povo”. O referido jornal não guarda relação com o atual semanário da Arquidiocese “O São Paulo”.

Dom Camargo Barros fundou na diocese a Hora das Vocações Eclesiásticas, a dos Exercícios Espirituais ou Retiro do Clero. Reorganizou a Federação das Associações Católicas e a obra da Doutrina Cristã, para o ensino da catequese.

Foi o bispo que governou a diocese de São Paulo pelo menor tempo: dois anos e quatro meses. Nesse período, realizou a fundamental e profunda reforma administrativa do Seminário Episcopal, separando-o do Colégio Diocesano, que recebia alunos não destinados ao sacerdócio. Em Pirapora, povoado vizinho a Santana do Parnaíba, instalou o seminário menor, entregando sua administração aos premonstratenses. Reformulou o seminário maior, tendo em vista a faculdade que pensava pleitear em Roma.

Recebeu de Sua Santidade Pio X os títulos de Prelado Doméstico e Assistente ao Sólio Pontifício e Conde Romano. Viajou a Roma, em visita Ad Limina, em 06 de maio de 1906, acompanhado do padre José Marcondes Homem de Melo, arcebispo eleito do Pará, que receberia a sagração episcopal em Roma.

Ao retornarem, ambos embarcaram a bordo do vapor “Sírio”. Em 04 de agosto de 1906, o transatlântico naufragou nas alturas do cabo Palos, no litoral da Espanha. Depois de dar a absolvição a toda à tripulação, dom José de Camargo desapareceu nas águas do Mediterrâneo, salvando-se dom José Marcondes. O bispo contava com 48 anos de idade e seu corpo nunca mais foi encontrado

Dentre seus inúmeros escritos, destacam-se as seguintes pastorais: Pastoral de Saudação ao Paraná (1894); Pastoral anunciando visitas pastorais (1895); Pastoral a respeito da aparição de uma pretendida Santa (1895); Pastoral sobre a criação do Seminário (1896); Pastoral de despedida aos diocesanos de Curitiba (1897); Pastoral mostrando a necessidade de imprensa católica (1899); Pastoral de ensinamentos de postulados da Igreja (1899); Pastoral sobre a viagem Ad Limina (1899); Pastoral sobre o intruso que se inculcava sacerdote (1899); Pastoral de despedida aos diocesanos de Santa Catarina e Paraná (1904); Pastoral de saudação aos diocesanos de São Paulo (1904); Pastoral transcrevendo a Encíclica de Pio X Ad diem illum (1904); Pastoral divulgando a Encíclica Acerba Nimis (1905).

Na cripta da Catedral Metropolitana, encontra-se uma lápide em homenagem a dom José de Camargo Barros com a seguinte inscrição:


“IOSEPHO.DE.CAMARGO.BARROS
EPISCOPO.PAVLOPOLITANO
DOCTRINAE.CHRISTIANAE.STERNVO.PROPAGATORI
QVI.SACRORVM.LIMINVM.VISITATIONE.PERFVNCTVS
BRASILIAM.REMEANS
AD.OBRAS.HISPANICAS.NAVFRAGI.FACTO
MORTEM.FORTITER.OPPETIIT
FRID.NON.AVG.MCVI” 1

1 A José de Camargo Barros, bispo de São Paulo, indefeso mestre da doutrina cristã o qual, após uma visita aos liminares sagrados (de Roma), voltando ao Brasil, naufragou junto às costas da Espanha e corajosamente se deparou com a morte aos 04 de agosto de 1906.



BRASÃO E LEMA

Lema
VENIO IN NOMINE DOMINI
Venho em Nome do Senhor

Descrição: Escudo eclesiástico, terciado em pálio: o 1º de blau, com um pombo de argente, de asas estendidas e nimbado de jalde; o 2º de jalde, com uma árvore de sinopla, arrancada de argente; e o 3º de goles com um in-fólio aberto de argente com uma espada do mesmo, posta em banda e brocante sobre o livro. O escudo assente em tarja branca. O conjunto pousado sobre uma cruz trevolada de ouro, com um coronel de Conde, entre uma mitra de prata adornada de ouro, à dextra, e de um báculo do mesmo, a senestra, para onde se acha voltado. O todo encimado pelo chapéu eclesiástico com seus cordões em cada flanco, terminados por seis borlas cada um, tudo de verde. Brocante sob a ponta da cruz um listel de blau com a legenda: VENIO IN NOMINE DOMINI, em letras de jalde.

Interpretação: O escudo obedece as regras heráldicas para os eclesiásticos. O 1º campo, de blau (azul) representa o firmamento celeste e ainda o manto de Nossa Senhora, sendo que este esmalte significa: justiça, serenidade, fortaleza, boa fama e nobreza. O pombo representa o Divino Espírito Santo que inspira e rege os bispos, sucessores dos apóstolos, sendo de argente (prata), simboliza a inocência, a castidade, a pureza e a eloqüência; o nimbo ressalta a divindade da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, sendo de jalde (ouro) simboliza: nobreza, autoridade, premência, generosidade, ardor e descortínio. A Árvore arrancada simboliza origem nobre (os velhos troncos bandeirantes: Camargo e Barros) e sublimidade de pensamento e, por sua cor sinopla (verde) simboliza esperança,liberdade, abundância, cortesia e amizade; o campo de jalde e as raízes de argente têm os significados acima descritos. Por último, o campo de goles (vermelho) simboliza o fogo da caridade inflamada no coração do bispo, bem como valor e socorro aos necessitados, e ainda o martírio de São Paulo Apóstolo, também representado pelo in-fólio com a espada, numa referência ao padroeiro do estado e da diocese do bispo. O lema traduz o propósito de vida episcopal de Dom José: “Venho em Nome do Senhor”.